Tradução: Paris Match (22/03/2001)

Vanessa Paradis: “Meu amor e eu.”
Ela fala da música de sua vida, Johnny Depp e Lily Rose.

 

Vanessa mostra seu charme em um lânguido olhar de gato. Mas ela não está fingindo. A ex-Lolita não tem mais nada a provar. Cheia de amor, ela passa todos os seus dias com Lily-Rose Melody, sua filha de 22 meses, e Johnny Depp, seu “amado”. Seus shows no Olympia, de março 20 a 26, e no Zenith, 30 de maio são tranquilizantes encontros. Em “Bliss”, seu novo álbum, ela canta sobre sua vida, seu homem (“Eu parei de de me procurar / Desde que eu encontrei você / A melhor pessoa em mim / No fundo, é sempre você”), sua filha ( ” Você dá sabor a vida / Eu devo confessar, eu invejo você / Você é tudo que me dá desejo / Me dá vida / Melody”)… Vanessa Paradis na realidade.

P.M.: Quando ouvimos seu álbum, pensamos que por você ousar ter um tom tão pessoal, tão íntimo, você deve se sentir bem sendo você.
V.P.: Se alguém não está confortável, é óbvio: as músicas são tristes, em conjunto as coisas são obscuras. A menos que você está se fazendo acreditar, escrevendo o que você imaginar. Eu, eu tenho a sorte de viver isso. Isso é que é incrível.

P.M.: Você não pode acabar com isso?
V.P.: Eu não consigo me acostumar a ter tanta sorte. Eu até sofro de um sentimento de culpa. Às vezes penso que se há vidas passadas, eu tive uma vida muito ruim para ter tanta sorte nesta. É raro estar feliz nessa altura.

P.M.: Foi a sua difícil adolescência apoderada?
V.P.: Eu não posso te deixar dizer isso. Ninguém roubou a minha adolescência. Ou era eu, ou eu sozinha, porque eu sempre tomei minhas próprias decisões. Ninguém nunca me empurrou. Até mesmo quando eu decidi fazer “L’École Des Fans” com 8 anos, foi porque eu quis. Se as coisas não vão sempre bem, se entre mim e França não há uma grande história de amor, eu posso entender. Havia razões para isso: uma garota pequena, adolescente mimada, problemática… eu fiz minha análise. Minha adolescência foi igual à de todos os adolescentes. E se eu era um pouco perturbada, eu não tenho o direito de que as pessoas sintam pena de mim. Eu tinha, como todos, desejos glaucos e dias obscuros. Mas eu tive a sorte de estar cercada por pessoas da música, pela minha família, por muito amor e carinho. Isso me deu o desejo de continuar, para ficar sozinha, para tomar as rédeas da vida. A experiência me fez mais forte.

P.M.: O que impressiona ao ouvir você, em Bliss em particular, é o ar de harmonia que parece que você tem agora.
V.P.: Porque há harmonia no meu coração. Eu vivo com o homem a quem eu amo. Juntos nós temos uma menina de boa saúde que é um sol radiante. Este álbum, eu fiz isso para eles, para nós. Ao fazer isso, eu tive o desejo infinito de fazer eles orgulhosos de mim. Para Lily-Rose, será necessário esperar um pouco para ela entender.

P.M.: Johnny Depp aparece no álbum. Não há um perigo na vida privada e profissional interferir uma com a outra?
V.P.: Existe um perigo quando um não respeita o outro. Quando um não é o melhor amigo do outro. Nós podemos trabalhar juntos, podemos ser separados pelo trabalho. O essencial é manter – pessoalmente, por telefone ou fax – um relacionamento onde há muito amor, respeito e generosidade.

P.M.: Em uma canção dedicada à sua filha, você menciona a dificuldade de se permanecer puro em um mundo que é menos do que puro. Você acha que as crianças nascem bem e é a sociedade que as corrompe?
V.P.: Sim. Há obviamente exceções. Eu estou pensando em particular no filme que foi chamado de “Bad Seed” (A Tara Maldita). Mas mesmo que eles se tornem uma semente ruim mais tarde, eu acho que durante os três primeiros anos de suas vidas, eles são puros, inocentes.

P.M: Sim, mas com 4 anos de idade, eles começam a cortar as asas de borboletas…
V.P.: Eles não estão conscientes disso. Eu, quando eu era criança, eu adorava dizer insultos. Achei brilhante porque fizeram os adultos reagirem. As crianças não estão cientes da violência das palavras, dos gestos. A filha de um dos meus músicos cortou o rabo de um gato. Ela não fez isso maliciosamente: ela estava experimentando (risos)

P.M.: Como você protege Lily-Rose deste mundo impuro?
V.P.: Por viver isso, não existem segredos nem tabus entre nós. Eu amo minha filha, eu a protejo, eu até super protejo ela. Quando ela corre em volta da uma mesa, eu corro mais rápido do que ela. Mas eu nunca vou colocá-la em um casulo, porque quando ela for para a escola, ou mais tarde, aos 18 ou 20 anos de idade, eu não vou sempre estar lá para preservar esse casulo. E nessa fase da vida você recebe golpes emocionais inacreditáveis. Você não está preparado para enfrentar essa existência. Eu desejo estar presente, mas também quero deixar ela ter seu espaço, vou explicar a ela, se ela quiser me ouvir. A dificuldade é proteger, sem sufocar ela. Eu acredito que eu tenha que me preparar mais do que ela, porque, inevitavelmente, um dia, ela vai ficar triste, ela vai se machucar.

P.M.: E o pai também protege?
V.P.: Sim. Às vezes mais do que eu.

P.M.: Quando você está em turnê, como você organiza as coisas?
V.P.: É um pouco complicado. Eu geralmente faço isso quando estou perto dela. Essa é a regra, não importa o quê, se eu não puder estar perto dela eu não vou. Eu não posso viver sem minha filha.

P.M.: Na capa do CD, é você?
V.P.: Não, foi meu amado que tirou a foto e editou no computador. Eu fiz os pequenos e simples desenhos dentro. Eles não têm um grande significado. É só pra fazer o álbum parecer mais caseiro. Eu não fiz isso por mim, mas eu coloquei muito de mim mesma nele.

PM: Me dá a impressão de um álbum de fotos que uma mãe faz para seu filho quando ele nasce. Até a voz da sua filha é ouvida no álbum. Só falta uma mecha de cabelo
V.P.: Isso é o que eu queria. Para saber que, em vinte ou trinta anos, este álbum ainda vai existir. Que é indestrutível. Porque perder um álbum de fotos, isso é terrível.

P.M.: Na multidão de lugares entre a França e os EUA, onde você vive com mais frequência?
V.P.: Eu vivo onde eu trabalho. E quando eu não trabalho, eu moro onde meu amado trabalha. E quando ele não quer trabalhar, nós vivemos em nossa casa no sul da França.

P.M.: “Meu amado” é uma expressão bonita. Você não preferiria dizer “meu marido”?
V.P.: Mas não estamos casados!

P.M.: É exatamente onde eu queria chegar
V.P.: Eu não sinto como se estivesse faltando alguma coisa. Nós não somos contra casamento. A questão de querer ou não, simplesmente não está na agenda. Quando eu era jovem, antes que eu soubesse o que sei agora, eu fantasiava sobre o casamento como muitas meninas fazem, sobre ter o sobrenome, tudo isso. Nós, decidimos começar imediatamente tendo um bebê. Ela não caiu do céu. Lily-Rose era planejada. Decidimos de imediato, três meses após o início do nosso relacionamento. No fim das contas… é uma história mais longa… eu não vou entrar em detalhes. Vamos simplesmente dizer que ele é alguém que eu amei por muito tempo. E quem eu encontrei várias vezes.

P.M.: O que te atraiu nele?
V.P.: Tudo. Até mesmo seus defeitos. Porque, felizmente, ele tem alguns.

P.M.: Em seu álbum, há essa letra: “I’ve finished looking for myself since I’ve found you.” Isso é o que você sente?
V.P.: Sim. Eu não acredito em uma vida cheia de filmes, música, sucesso, só para mim. Descobri que passar a vida sozinha é um desperdício de vida. Eu não sou a única pessoa que já procurou o homem de sua vida. Só que eu encontrei. Para mim, uma vida bem sucedida é uma vida compartilhada. Ainda que eu saiba que algumas pessoas fazem outras escolhas.

P.M.: É porque você encontrou alguém que você não usa mais maquiagem?
V.P.: nem sempre usei. Hoje à noite, eu canto, e eu vou usar. Mas na vida cotidiana, é bom esfregar os olhos e não se preocupar com o meu lápis de olho, sentir a respiração da pele. Antes, eu tinha uma tonelada de coisas, começando com o meu corpo, que eu tinha que aceitar. Hoje, meu homem gosta de mim como eu sou. Então, eu não tenho que fazer um esforço para ninguém. Para além do público ou a lente de câmaras, mas isso está longe de ser desagradável. Eu, eu sou uma mulher real: eu gosto de vestidos bonitos, das franjas dos anos 30, frisos e bordados.

P.M.: Sua mãe e seu pai são muito ligados, eles deram-lhe um modelo familiar perfeito. Você sente que tem que ser tão boa como eles são?
V.P.: Não, porque todo mundo tem uma vida diferente de acordo com suas circunstâncias, com as situações. A maioria dos amigos dos meus pais são separados ou divorciados. Minha mãe sempre me disse: “Você acha que foi fácil para nós?” Para viver 30 anos com alguém, não é fácil. Meus pais foram submetidos a testes como muitos de seus amigos. Eles só conseguiram superá-los. Os outros talvez fossem mais impacientes.

P.M.: E você, é paciente?
V.P.: Mais do que ele. Eu era impulsiva, desorganizada. Hoje em dia, quando eu vou em uma viagem, eu não devo pensar apenas na minha bagagem, mas também em tudo o que Lily-Rose necessita. Tornei-me um modelo de organização, e isso faz minha mãe rir muito, porque eu nunca fui isso. E no mais, eu sei que se meu amado é impulsivo e impaciente, é o meu trabalho controlar ele. Não quero dizer que eu vou carregar tudo isso em meus ombros. Todos nós temos a nossa vez. Você sabe, ok, às vezes você quer gritar e quebrar pratos. Você pensa: o prato gostaria de ser quebrado? Chega um momento em que uma das duas pessoas deve se render, mas nem sempre a mesma pessoa. Para dizer a verdade, ele é alguém que só precisa de uma faísca para explodir. Mas por outro lado, ele é extremamente calmo. Ele sabe moderar. De qualquer maneira, ele pode controlar seu demônio interior. Nesses momentos, ele é mais calmo do que eu.

P.M.: Este equilíbrio é um tanto quanto surpreendente, porque cada um de vocês se alto projetou um provocador, uma imagem rebelde.
V.P.: Eu nunca pensei em mim como uma rebelde. O termo ainda me faz sorrir. Se eu causei algo a mim mesma para ter essa imagem, foi um esforço inconsciente. Ele, a mesma coisa. Quando você o viu agir como um animal, destruindo os lugares por aí, sempre havia uma razão. Mais uma vez, não vou me permitir entrar em detalhes. É a sua história, e que a maioria dessas coisas aconteceu antes de quando vivíamos juntos.

P.M.: Você é uma daquelas pessoas que pensam que se você não se rebelar nos 20 anos de idade, você é um caso perdido para o resto da sua vida?
V.P.: Sim. Com a idade, você se acalma. Você não tem que se revoltar mais, você não tem que rejeitar mais, você se recompõe. Pelo menos, isso é algo que não teremos que ensinar para Lily-Rose (risos). Eu acredito que ela já conseguiu.

P.M.: Você compartilha com ele as mesmas revoltas?
V.P.: Sim. Reagimos muito bem sobre as mesmas coisas. O que nos provoca é a raiva, o desperdício e maldade, coisas que são de graça e naturais.

P.M.: “Bliss” é um álbum intimista, mas nunca indecente. Você está com medo?
V.P.: Não, porque eu não terei que abrir as portas: este álbum fala de temas universais, onde qualquer um pode se reconhecer. Eu raramente falo sobre minha vida privada. Eu fiz com você. Não quero que meu silêncio seja mal interpretado, para que as pessoas pensem eu disfarço algo feio. O que eu tenho é muito bonito. De qualquer forma, eu não posso resistir ao prazer de falar sobre nós. Quando você está apaixonado, quando você está muito feliz, você quer gritar para todos os lados.

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