Tradução: Rolling Stone, França (Janeiro de 2010)

Vanessa Paradis: Eden Rock

Você publica seu primeiro Best Of, que tem como título, Best Of…
Isso é claro, quer dizer bem o que isso quer dizer… de fato, eu sempre tenho dificuldade em encontrar canções para meus álbuns, em todo caso os dois últimos: pelos anteriores, eu participei menos com reflexão. Agora, ele deve lembrar cinco álbuns de estúdio, mais os ao vivo, os duos, os momentos raros, tudo em 22 anos… então o Best Of, é o título ideal, não? E depois, com o tempo, todo mundo faz os Best Of…

Justamente, esse não é exatamente teu gênero de “fazer como todo mundo”…
Não, mas hoje com a era da internet e do mp3, fazemos compilações nós mesmos, para as pessoas que nós amamos. É como escrever uma carta a alguém. É um dos lados positivos do mundo moderno, mesmo se eu não esteja muito por dentro da tecnologia e dos computadores. E depois, um Best Of é pratico. Quando eu tenho vontade de conhecer um artista do passado e não sei qual do seus discos escolher, eu opto pelo Best Of.

Nós podemos considerar o exercício como um tipo de equilíbrio?
De partida, eu não gostava da ideia de um disco que não teria mais que os sucessos. Os sucessos não são obrigatoriamente as melhores canções, o reflexo fiel de um trabalho. A escolha é um verdadeiro quebra-cabeça, leva meses. Claro, foi necessário incluir as inevitáveis, mesmo se os arranjos às vezes pareçam datados. Mas eles fazem parte de uma época, são lembranças, é o lado Madeleine de Proust. Eu quis um cd que tivesse dois cd’s, para poder propor também outra coisa. No Best Of de Patti Smith, que se intitula Land, ela escreveu um texto que eu adoro muito e me inspirou: “o primeiro cd vocês escolheram pra mim, o segundo cd eu escolhi pra vocês”. É exatamente o que eu tentei fazer.

No meio de todos os seus singles, que todo mundo conhece, há também uma canção inédita de Gaetan Roussel. Como o encontro aconteceu?
Claro, eu conhecia seu trabalho com Louise Attaque e Bashung, mas antes de encontrar ele, eu dei de cara com essa música que me foi enviada por meio de outros. Eu tive imediatamente um amor à primeira vista. É o gênero de canção perfeita que podemos sonhar por anos, por décadas, e que vos chega de repente. Além do mais, eu não mudei muita coisa, o resultado final é muito próximo daquele que Gaetan tinha me enviado.

No segundo cd, há alguns covers, entre eles um de The Zombies. Mas não encontramos versões que você fez para certas músicas dos Beatles, Stones ou Lou Reed…
É verdade, entre outras, eu interpretei Walk On The Wild Side. Mas ouvindo novamente, eu acho que ela lembra muito a versão original, bem pior… as regravações eu prefiro quando elas são diferentes, transformadas.

Mas geralmente, Vanessa Paradis é uma fã de rock?
Eu não discordo de nenhuma parte. A música pertence a todo mundo, como amo o jazz, blues, ou o funk. O que conta, são as boas canções, pouco importa o rótulo. O rock, eu ouvi muito cedo, certamente no ventre da minha mãe. Eu comecei a trabalhar com 14 anos, eu fiz um tour pelo mundo, eu vim à Nova York, minha cultura musical eu, sobretudo a forjei ao longo das minhas viagens, dos meus encontros. Mas eu me considero uma cantora de variedades, num sentido mais amplo.

Ao longo do tempo, você colaborou com pessoas como Franck Langolff, Serge Gainsbourg, Etienne Roda-Gil, Lenny Kravitz ou M. Isso não era às vezes algo opressivo?
Mesmo depois de todo esse tempo, eu não posso acreditar em ter trabalhado com pessoas desse nível… eu tive a sorte de encontrar pessoas muito inteligentes, brilhantes e generosas. Eu me digo que eles provavelmente não me escolheram sem razão, havia alguma coisa em mim que os agradavam. Gainsbourg por exemplo, eu não era a melhor cantora do mundo, nem uma mulher que ele queria seduzir, eu não era mais que uma criança. Eu acho que ele viu alguma coisa em mim que o tocou, alguma coisa verdadeira. Eu jamais me senti esmagada, vampirizada ou manipulada. Eu tenho certeza que todos aqueles artistas com quem eu trabalhei fizeram isso com coração e sinceridade.

Nos seus dois últimos álbuns, há algumas canções assinadas por Johnny Depp. Ele sim ama o rock…
E, sobretudo é um verdadeiro músico. Com seu grupo, ele viajou muito nos EUA em um carro velho, ele sempre amou isso. Como tudo que ele se compromete, seja música ou atuação, ele faz isso melhor do que os outros. Ele faz isso até suas tripas, e tem belas tripas!

E você, se sente uma musicista?
Eu compus algumas músicas nos meus últimos álbuns. Mas meu grande lamento, é a preguiça de aprender a tocar algum instrumento. Eu fiz aulas de piano quando era criança, mas em um ano e meio, eu tinha a impressão que me torciam os dedos em todas as direções, então, como uma idiota, eu decidi abandonar. Hoje eu toco com três dedos, a guitarra é a mesma coisa, eu levo horas para encontrar os acordes que eu ouço na minha cabeça, isso é trabalhoso.

Você escuta o que, nesse momento?
Eu escuto muita música, mas sem forçadamente saber o que significa. Taj Mahal, eu não sei porque demorei tanto tempo… pra mim os novos artistas, alguém como Melody Gardot me encanta, eu a acho perfeita. Mas há muitas coisas que me escapam, eu tenho amigos que conhecem tudo, eu não sei como eles encontram, eu não tenho tempo, com tudo isso pra se fazer na vida adulta, na vida de mãe.

Seu disco preferido dos Beatles?
O “Blanc”. Mas eu tenho todos…

Você é mais Beatles ou mais Stones?
Esse é o tipo de pergunta que sou incapaz de responder. Mais do cinema ou mais da música? Mais morena ou mais loira?

O palco pra você, é uma necessidade?
Eu adoro isso, mas me falta treinamento. Passa muito tempo entre duas turnês, e cada vez, eu tenho a impressão de tudo começar do zero. É como a ginástica, não podemos jamais abandonar, senão ficamos moles…

Com o tempo, sua voz parece mais clara, menos ácida…
Eu deixei o cigarro. Mas eu fumei muito antes, então há um monte guardado… é verdade que hoje eu tenho mais facilidade em cantar, mais prazer também. No envelhecimento nos livramos de um monte de frescuras que não servem pra nada, para chegar ao essencial. Finalmente, há muitas coisas se ajeitando com a idade…

 

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