Tradução: Paris Match (09/10/2010)

Vanessa Paradis e Karl Lagerfeld.
Se Versalhes estivesse me cantado

Em relação a Vanessa você disse: “Eu não gosto de dizer que somos amigos – esse assunto é nosso”. Isso é mais por discrição?
Karl: eu não sou a favor das declarações públicas sobre os sentimentos. Eu não lembro em que livro uma mulher diz: “se eu gosto de você, não é da sua conta”. Ela está certa.
Vanessa: nós nem comentamos entre nós o assunto em questão, talvez só não tivemos chance. Não compartilhamos nem o cotidiano.

Vocês se conhecem há quase 20 anos, mas o “vouvoiement” (francês “vous”, a maneira formal de se dirigir a segunda pessoa, seja no singular e plural, ou “tu”, singular no vocabulário informal) está sempre em rigor entre vocês. Por quê?
Vanessa: eu respeito à vontade do Karl, mas é um “vous” que não impõe distância entre nós.
Karl: eu tenho horror à familiaridade, sobretudo com aqueles que eu amo. É um sinal de indiferença.
Como vocês descrevem suas relações então?
Karl: eu gosto de trabalhar com pessoas que não dependem de outros, que tem suas próprias vidas. A dela é particularmente bem sucedida, ela jamais te incomoda com os problemas dela. Vanessa não é de ficar batendo o pé no chão histericamente.
Vanessa: eu sou como muitas pessoas, educada e gentil com os outros. Quanto ao resto, digamos que eu tenho tanta sorte que não vejo o porquê de falar sobre meus pequenos problemas.Vanessa cantou no Ópera Royal no Palácio de Versalhes, e depois vocês realizaram essa série de fotos no local. Como isso foi feito?
Vanessa: eu estava ansiosa para encontrá-lo para trabalhar. Eu sempre me proporciono uma alegria por esses encontros. Mas eu conhecia bem menos o lugar que você.
Karl: Em Versalhes, eu poderia servir de guia um dia de greve dos guardiões.
Vanessa: graças a você, eu me troquei no quarto de Marie Antoinette, eu toquei algumas notas em sua harpa, o vento soprou meu vestido pelo jardim onde ela andava, eu entrei no templo do Amor e eu me encontrei nos braços de um anjo.

Vanessa, como você poderia definir Karl?
Vanessa: ele tem trezentos milhões de atividades, mas nunca está cansado, constantemente disponível. Tem sempre coisas interessantes para dizer e geralmente tem razão. O que eu mais admiro nele é a genialidade e a bondade, mas me envergonha dizer isso na sua frente Karl.
Karl: eu tampo meus ouvidos, continue.
Vanessa: é uma bela pessoa, é muito fácil de verificar, conversando com suas costureiras. Elas só têm palavras de carinho por ele.

Isso é natural seu, Karl?
Karl: com as mulheres, sim. Eu gosto menos de trabalhar com homens. Tive vários assistentes que acabaram pensando que eles eram dez vezes melhor do que eu, mas nenhum deles conseguiu. Fora Hervé Léger, o resto são todos nulos, cujas cabeças encheram subitamente. A minha, eu esvazio a minha todas as manhãs.

Como você vê a Vanessa?
Karl: ela não se vê como uma estrela. Em torno dela, não vemos os guarda-costas chutando aqueles que tentam se aproximar dela.
Vanessa: mas eu sou como você, Karl, adoro as pessoas, eu tenho vontade de falar com elas, preciso aprender com elas. Nós somos talvez muito envergonhados em dizer certas coisas.
Karl: eu tenho horror à indiscrição. Que as pessoas mostrem sua bunda não me incomoda. Se eles expõem seus sentimentos, isso me choca. Felizmente, Vanessa, você não os faz jamais.

Finalmente, Vanessa, você exerce quantas profissões? Atriz, cantora e agora musa de uma marca…
Vanessa: Sim, eu tenho a impressão de participar da moda de maneira criativa. Isso me alimenta artisticamente. Não é o luxo que me impressiona, mas o artesanato, a paixão, o respeito e a gentileza dessa marca. Ser uma Garota Chanel sempre me agradou. Me sinto orgulhosa.

Original, é uma palavra que pode descrever vocês dois? E diletante?
Karl: diletante, eu adoro! Há uma clareza muito agradável nessa palavra que significa que nós criamos o que nos dá prazer. Não somos marcados pelo rótulo de “trabalhador”. Original, sim, também. Eu sei que eu não pareço com qualquer outra pessoa.
Vanessa: eu gosto de ter a sensação de ser original. Minha palavra não vai te agradar: eu tenho a impressão que todos somos.
Karl: ah, você é muito otimista. Mas eu jamais conheci uma outra Vanessa Paradis, então você é original, minha querida.

O show de Vanessa em Versalhes é uma mistura de sons crus, primitivos e sofisticação. Você sentiu dessa maneira?
Vanessa: há 18 metros vazios e de madeira sob o palco. As vibrações das cordas vocais misturado com os instrumentos te invadem da cabeça aos pés.
Karl: Versalhes é perfeito pra isso. A época de Luis XIV era bastante brutal e selvagem. O show da Vanessa foi amigável, caloroso e intimista, como deveria ser no momento em que Lully deu performances de “Atys”, a ópera favorita do rei.

Matthieu Chedid disse que Vanessa é um ícone, como Brigitte Bardot era. Poderia nos explicar, Sr. Lagerfeld, o que é um ícone?
Karl: é uma coisa ridícula que encontramos em igrejas gregas ortodoxas ou russas. Seriamente: embaixatriz, ícone, musa são palavras empregas em todas as coisas. O desvio etimológico é muito perigoso.

”Um sorriso depois um suspiro, ela cantarola uma canção, nem triste nem alegre”, é assim que você canta Marilyn Monroe, da qual você possui um par de sapatos. É um ícone para você, Vanessa?
Vanessa: só o fato de te ouvir pronunciar o nome dela me emociona. A voz dela era incrível e eu adorei a maioria dos filmes em que ela atuou. Eu tive a oportunidade de ouvir a Anna [Mouglalis, outra face da Chanel] ler poemas e textos pessoais de Marilyn publicados sob o título “Fragments”. Este livro mostra como ela era inteligente, profunda, cultivada.

Vanessa você diz que o cinema coloca você em férias de sua personalidade e suas canções nunca são autobiográficas. Onde está o verdadeiro você em tudo isso?
Vanessa: eu estou em todo lugar, mas é a minha intimidade mais profunda, então não espere que eu te fale sobre ela. Eu revelo sobre mim mesma no que eu digo no palco, em fotos ou no cinema.
Karl: o que é fundamental na Vanessa não é o que ela faz, mas como ela faz. Ela poderia transmitir emoção ao cantar a lista telefônica.

Uma música é um papel?
Vanessa: depende do dia, quem está ao seu redor, seu estado de espírito.
Karl: mas manter todos os textos na cabeça, como você faz isso? Eu não poderia, sou totalmente distraído.
Vanessa: nos shows, às vezes eu esqueço algumas palavras, então ajo como se nada estive acontecendo. Outras vezes, como na canção de Charles Aznavour, “Emmenez-Moi”, que é muito difícil, aconteceu de eu ter que parar realmente, deixar e rir com o público, que ficou muito feliz de ser cúmplice daquele momento.
Karl: você cantou Aznavour ou com Aznavour?
Vanessa: os dois. Eu tive a oportunidade de interpretar com ele “Au Creux de Mon Épaule” com a cabeça no ombro dele (como diz o título da música).
Karl: incrível! Quando eu tive meu primeiro carro, um conversível Volkswagen, a primeira música que ouvi na rádio foi “Au Creux de Mon Épaule”.

Vanessa você disse: “Eu sou muito grata pelas más línguas, pois moldaram meu caráter”. Sem ressentimentos?
Vanessa: não tenho vontade de perder tempo com isso. Comecei a ser uma figura pública com 14 anos e essas más línguas me fizeram um favor realmente. Eu não me apresentei no meu melhor, mas não eram bons comigo também. Meus pais me protegeram com seu amor.
Karl: eu não sou do gênero virar a outra face. Eu posso ser igualmente muito rígido. E eu tenho uma paciência de anjo em termos de vingança. Eu posso puxar uma cadeira depois de vinte anos se me tivessem feito algo ruim. Mas às vezes eu esqueço pela indiferença.

Vocês sentem viver em um mundo de respeito entre as pessoas?
Karl: eu me sinto protegido, não exposto à maldade no mundo. A realidade, eu mal sei o que é e eu tenho quase vontade de pedir desculpas. Isso faz parte dos nossos privilégios.
Vanessa: estamos preservados, mas não me sinto aprisionada em uma bolha. Mãe de dois filhos, sou forçada a enfrentar a realidade diária, é uma grande diferença entre nós. Estar sempre mais preocupado com seus filhos do que com si mesma.
Karl: eu acho que seria o pior dos pais, porque eu faria o que fizeram comigo, ou seja, eu deixaria os meus filhos em total liberdade.
Vanessa: mas você é de uma total gentileza… eu tenho certeza que você seria um bom pai.

Você não acha incrível ver Vanessa depois de tanto tempo e se dizer que ela tem só 38 anos?
Vanessa: não tem ainda. Espere até 22 de dezembro.
Karl: ela não os tem. Para mim ela simboliza juventude não manipulada.

A aparência jovem é importante pra vocês?
Karl: acontece na cabeça. A juventude, uma obsessão de nosso tempo, tornou-se um exagero criado, inventado por pessoas de meia idade que querem irritar aqueles que são mais velhos.
Vanessa: a juventude é uma questão de energia.
Karl: e de espírito. Nunca devemos comparar ao que vivemos em um passado mais distante ou menos. Às vezes me chateiam sobre os bons velhos tempos. Eu digo: “se é um velho tempo, eu não me lembro”.
Vanessa: estranhamente, eu gosto de olhar para trás. Eu me lembro dos momentos felizes, amigos que amamos, que te fazem falta.

Quais são suas definições sobre amor?
Vanessa: oh, la, la! É uma coisa natural, que funciona assim também.
Karl: para não cair em uma rotina e sordidez, o que muitas vezes acontece. É por isso que o único amor que eu acredito é o amor de uma mãe com seus filhos. Desconfio do amor paterno. Sou a favor do matriarcado. Minha mãe me disse: “Os homens não são importantes, você pode ter uma criança com qualquer um deles”. Isso talvez explique minha visão.
Vanessa: é o amor ao qual você acredita, e eu respeito-o totalmente. Mas tive muito amor de meu pai, que era totalmente diferente daquele dado por minha mãe e que permanece fundamental no meu equilíbrio pessoal. E então eu vejo o amor que Johnny tem por suas crianças. A forma é diferente, mas existe a mesma devoção.

Karl, que você teve uma relação difícil com seu pai?
Karl: nascido em 1880, ele era outra época, de outro planeta quase. Mas era adorável, mais gentil do que a minha mãe, mas menos engraçado. Ele me dizia: “Você pode me perguntar o que quiser, mas não na frente de sua mãe”. Porque ela estava zombando de sua fraqueza. Eu escrevia diários que ela leu e jogou dizendo: “É essencial o mundo saber que você era tão idiota?”.

Vanessa, onde se encontra o projeto “My American Lover”, filme em que você deve atuar pela primeira vez com Johnny Depp?
Vanessa: o script não está terminado. E ainda não estamos satisfeitos com as versões que nos propuseram. Depois, entre o horário do Johnny e meu, vamos ter que fazer malabarismos. Experiência atrai e nos assusta. Me ver na frente dele, atuar, mentir ainda parece difícil. Ao mesmo tempo, isso poderia permitir-nos há passar algum tempo juntos trabalhando, mas eu não se seria capaz de estar à altura dele. Contra isso, eu adoro quando ele me dirige, o que ele fez em quatro dos meus clipes. O que faz é tão rico em ideias, imagens, sentidos.
Karl: que tipo de mulher você gostaria de atuar com Johnny? Porque aqui não estamos em casa, temos de encontrar outra coisa.
Vanessa: seria mais fácil para eu assumir o papel de sua irmã ou sua empregada. Nós não procuramos um papel em que atuo como sua amante, a proposta aconteceu assim e nos seduziu. E depois, isso é o que faz as pessoas sonharem.

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