Tradução: Interview EUA (Novembro de 2010)

Vanessa Paradis por Patti Smith
Apesar do fato de ela ter sido uma estrela pop internacional, uma atriz aclamada pela crítica, e uma beleza de renome pela maioria do tempo de sua vida adulta, Vanessa Paradis nunca parou de tentar fazer coisas extraordinárias, como gerenciar sua muita ocupada carreira de múltiplos roteiros, cuidando do jardim de sua casa no sul da França e constituindo uma família com Jack Sparrow.

Patti Smith: Então, em preparação para esta entrevista, eu sentei e contemplei. Está chovendo, então eu me levantei muito cedo, só pensando em você, e como você olha, e do jeito que você é. Eu realmente pensei que apesar de todas as suas responsabilidades no seu trabalho, em sua vida, como mãe, você manteve o seu senso de entusiasmo, que eu acho que é um traço muito bonito, um traço de criança. Então minha primeira pergunta é: como você era quando você era criança?
V.P: eu era a única filha até meus 11 anos de idade, que foi quando minha irmã nasceu. Então por 11 anos, foi só eu. E eu acho que era quieta. Eu passava muito tempo com meus pais. Eles me levavam a todos os lugares… só eu estava lá. Se eu não estava com eles, estava com minha avó materna, e nós fazíamos muita jardinagem juntas. E quando não estava fazendo isso, eu estava brincando comigo mesma, e ficava tudo bem. Eu adorava. Eu gostava de colocar disfarces ou somente toalha de mesa ou qualquer coisa que eu encontrasse.
P.S: Você gostava de se disfarçar?
Eu gostava de brincar com disfarces. E me atraía muito também. Eu estava fazendo aulas de dança, também, que eu adorava muito. Eu nasci em um subúrbio de Paris, e cresci lá até meus 16 anos, então lá tinha sempre muitos churrascos, um jardim, amigos. Claro, eu tive muitos amigos – quando eu digo que era quieta, não era quieta, mas sim tranquila.P.S: Como uma criança, você deve ter tido uma certa solidão – mais solidão que outras crianças.
V.P: sim, e isso foi incrível. Eu acho que quando você não conhece nenhuma diferença… eu acho que isso me fez muito entrar no meu mundo. Mas eu estava cercada por amor e pessoas maravilhosas.P.S: Você era uma criança feliz.
V.P: uma criança feliz… não estou dizendo que era uma boa menina – só disse que eu não era um problema.

P.S: Bem, eu era uma boa menina.
V.P: (risos) eu acredito nisso.

P.S: Você se lembra quando começou a cantar?
V.P: eu acho que sempre cantei. A coisa que realmente me vem à mente em primeiro lugar é as musicais americanos, os musicais da MGM. Havia um show chamado “That’s Entertainment” onde juntava vários dos filmes musicais da MGM. Você veria Gene Kelly ou Fred Astaire ou pessoas introduzindo, e eles falavam sobre os anos da MGM e mostravam clipes de todos os filmes. Então eram cores e a música, os grandes arranjos da orquestra e números de dança e tudo mais…

P.S: Coisas como “Cantando na Chuva” com Donald O’Connor e Gene Kelly.
V.P: Cantando na Chuva era único pra mim. Sim, digo, Gene Kelly poderia sempre balançar e nunca cair. Ele só sacudia e sacudia como ele dançava. Era engraçado, ainda, porque eu gostava muito do grande espetáculo com a orquestra e todas as cordas e cornetas. Eu poderia cantar em inglês antes de entender, porque foneticamente eu aprendi isso com os musicais.
Eu errava as palavras, mas eu podia cantar tudo. Mas depois, também, meu pai costumava tocar músicas para mim. Ele tocava pouca coisa, e me ensinou a alguma coisa sobre cantar – não para brincar. Então ele tocava e eu cantava, eu adorava.

P.S: Porque você gravou quando era muito jovem, você deve ter descoberto sua voz muito cedo?
VP: é quase como se eu não tivesse tempo para pensar nisso. Nunca foi como se alguém tivesse me empurrado a cantar, porque eu queria fazer isso. Mas eu queria fazer mais isso como estar em casa com seus amigos e fazem um show juntos. Meus amigos e eu fazíamos coreografias e nós cantamos uma canção. Eu estava cantando constantemente, e eu ouvi as pessoas dizerem “oh, meu Deus, ela pode consegue cantar”. Então essa é uma boa coisa para se ter, você sabe.

P.S: Sim, mas é uma coisa mágica para ter.
V.P: mas o que digo, eu não acho que eu era boa. Quando eu comecei gravar, eu poderia cantar no tom, mas talvez era isso mesmo. O que aconteceu foi que meu tio (Didier Pain), quem não estava no negócio da música – ele é um ator, mas alguns amigos deles eram da música – poderiam me levar para visitar sets de filmes ou um teatro. Um dia ele me levou a uma gravação. Na verdade, era uma jovem atriz que eu gostava muito, que estava gravando seu álbum lá. Ele falou: “você gostaria de vir aqui ver um estúdio de gravação?”, e eu: “sim! legal, claro”. Eu tinha 12 anos. Foi onde eu conheci o compositor e o autor (Franck Langolff e Etienne Roda-Gil) do meu primeiro e maior hit, Joe Le Taxi. O compositor estava fazendo seu próprio álbum antes e talvez por causa da relação dele com meu tio, ele me convidou para fazer “backgrounds” em duas ou três músicas. E eu fiz. Eu fui à cabine com os fones de ouvido e ouvi a minha voz muito forte, que foi bem terrível na verdade.

P.S: A primeira vez que eu entrei em um estúdio de gravação com meus 20 e tantos anos para fazer os oohs e ahhs e sons de fundo para alguém, eu fui mandada para casa, pois fui péssima. Eu tinha escrito uma música para “Blue Oyster Cult”, e eles me queriam para fazer a voz de fundo, mas eu estava tão assustada com a tecnologia, e eu nunca tinha colocado headphones, então eu achei muito difícil. Até hoje não sou boa como voz de fundo. Eu odeio ter de fazer harmonias. Cantei todas elas, porém em “Dancing Barefoot”. Levou horas e eu estava reduzida as lágrimas. Eu pensei, nunca mais vou fazer outro ohh e outro ahh de novo se eu puder ajudar com isso. Em minhas próprias gravações hoje, fico feliz se minha filha fará as minhas harmonias. Mas não estava…
V.P: impressionada? Ou com medo? Eu estava. Eu não posso dizer que fiz bem na primeira tomada. Mas eu tinha sorte que aquelas pessoas que estavam comigo não gostavam de profissionais que queria fazer dinheiro com uma jovem, uma criança que canta…

P.S: você não estava fazendo testes para “American Idol”.
V.P: (risos). Na verdade, essas pessoas não estavam realmente mesmo fazendo sucessos na época. Eles eram como dois profundos, dois músicos maravilhosos. Então foi uma boa coisa quando eles escreveram Joe Le Taxi e nós gravamos, e então alguém acreditou nela e lançou, que eu pensei ser tão inesperados.

P.S: isso leva a algo que eu queria conversar com você: interpretação. Nós duas interpretamos no “Peace Day” em Paris. Você fez uma versão de “Hallelujah”, que eu achei tão inesperado. Eu nunca tinha ouvido você cantar essa música. E a interpretação era tão sutil e poderosa que me fez ouvir a música de uma forma totalmente diferente. Eu estava pensando como você chegou na escolha dessa música.
V.P: isso foi realmente sobre o amor por essa música há anos. Eu sabia que estava indo em um show no “Peace Day” e eu queria cantar uma música que não era minha. Eu queria falar sobre paz, mas é realmente difícil de encontrar uma dessas canções que não sejam bregas ou que desmoronam no palco. Então eu estava ouvindo o grande álbum de “Jeff Bucley”(Grace, 1994), que havia uma versão de “Hallelujah” e a luz apareceu e eu pensei “oh meu Deus, é isso”. Aquela música fala sobre a paz que há em você. É sobre o amor. Sobre as lutas. Sobre se armar e se desarmar. “Hallelujah” é onde sonhamos com paz – é o mundo que você quer ver nascer do mesmo jeito como o sol nasce depois da tempestade. Pareceu ser a escolha certa naquela noite. Eu percebi que eu não conhecia as palavras de coração (risos). Eu tenho escutado a música desde sempre, mas eu nunca estava cantando junto.

P.S: mas a maneira como você interpretou “Hallelujah” é quase como se você fosse um poeta romântico cantando essa canção silenciosamente pra si mesmo. Ao invés de ser realmente frontal, foi tão introspectivo.
V.P: mas eu estava com muito medo, você sabe. Porque essa única música, eu fiquei um tempo aprendendo a letra. Eu sempre mexo em uma palavra ou algo assim, e eu não queria mudar nada nessa música. Então eu pensei ok, vou ter que estar completamente focada. E então eu fechei meus olhos. E estava realmente dentro da minha mente, vendo as palavras. Às vezes eu queria abrir meus olhos porque eu queria acompanhar com as pessoas, mas na maioria do tempo eu os mantive fechados a fim de que não houvesse um ponto ou uma vírgula errada. Então eu comecei a sentir a emoção da letra dentro de mim, e eu pensei, “oh meu Deus, eu sou uma chorona. Estou começando a chorar. Eu não quero chorar… não chora”. Acaba a música! E eu só senti minha voz tremendo e as lágrimas subindo na minha garganta. E então eu pensei, se eu cantar pouco, então eu poderia ser capaz de não chorar. Então é isso que eu fiz.

P.S: eu achei que foi muito interessante ouvir uma voz feminina cantar ela, porque já ouvi várias interpretações masculinas da mesma e, claro a bela interpretação de Jeff Buckley. Mas a sua estava muito bonita também.
V.P: vindo de você, é o melhor elogio.

P.S: eu estava pensando, você tem viajado muito. Você tem um lugar preferido, um favorito que goste de estar ou que você sinta mais como você mesma?
VP: definitivamente nossa casa no sul da França. É no meio de árvores e campos. A luz é magnífica, a natureza é magnífica. É a mais linda, a vida mais simples. Mesmo que você vá para a cidade – e nós vamos, comprar pão ou qualquer outra coisa, as pessoas são doces. Eles não se importam que você faz. Eles só se preocupam que você tenha boas maneiras, que é algo que me interessa também, por isso é bom.

P.S: quando você faz uma performance, você tem algum amuleto da sorte ou um talismã especial que você carrega com você? Como uma moeda ou uma pedra…
VP: não é algo que eu vem me acompanhando por todos os anos. Mas ultimamente, normalmente é um tipo de amuleto de amor que cada um de meus filhos me dá no início da aventura. Porque cada gravação, ou turnê, é como uma diferente parte da minha vida. Então às vezes eu preciso estar longe deles e eles me dão algo, e carregarei isso pra todo lugar. E então ele vai acabar em um lugar na mesma casa no sul da França, e eu vou pegá-lo e relembrar: “essa foi à época”.

P.S: e torna-se uma relíquia especial. Uma das primeiras coisas que meu filho me deu foi um colar de macarrão, e eu tive que usar em todo lugar. O cordão estava começando a ficar todo emaranhado e os pequenos macarrões estavam ficando marrons. Mas eu não trocaria isso por rubis.
V.P: oh, não! Eu tenho cada um deles também. Eu adoro eles. Eles fizeram coisas estranhas com aqueles “Play-Doh” (massinha), se torna uma mistura de cores que ficam duros com o tempo.

P.S: eu acho que esses “Play-Doh” são presentes universais, porque eu tenho vários também. Há algo que você queira fazer que não fez ainda?
V.P: bem, aquela ideia de musical, essa ideia está na minha cabeça desde quando eu mal caminhava. Mas há dois lados disso. Eu adoraria fazer um filme musical, e eu também adoraria fazer no palco. Na última turnê, eu toquei por uma semana no Cassino de Paris, que é um lugar antigo como as revistas costumam usar, como o Moulin Rouge, Yves Tanguy, todas essas pessoas foram ali. Tem as escadas no meio das escadas do lado com todas as garotas para andar cantando. Há vários lugares como esse em Paris. Mas estando lá foi uma semana e fazendo um show acústico, eu só falava: “oh meu Deus! Eu poderia vir aqui toda noite”. Só de pensar em fazer algo assim por alguns meses, como uma brincadeira, e toda noite você vai trabalhar, você coloca a maquiagem e as penas, e vai… sim, é algo que eu realmente sonho. Mas eu não sei. Alguém tinha que vir com uma ideia antes que eu possa mexer minhas pernas.

P.S: seria uma síntese de todas as coisas que você gosta: cantar e se vestir, o espetáculo pequeno, mas bonito. Eu acho maravilhoso fazer coisas que são para a justiça social ou qualquer bom trabalho que fazemos, mas entreter pessoas é a nossa beleza. A palavra entreter pode ser uma palavra bonita. Não é necessariamente uma palavra comercial.
V.P: exatamente, algumas pessoas acreditam que é um remédio.

P.S: é um alívio, nada mais. Eu queria te perguntar: quando você me convidou para ir com você no apartamento da Coco Chanel em Paris, foi uma grande experiência. Karl Lagerfeld nos saudou e foi tão generoso em nos levar para um passeio. Foi tão bom ver vocês dois – vocês obviamente tem uma relação especial. Como é trabalhar com ele? É uma colaboração?
V.P: nos conhecemos faz tempo, mas eu realmente o conheci há poucos anos atrás. Trabalhar com ele nas coisas que fazemos pela Chanel é uma colaboração, claro, mas é também maravilhoso ser dirigida por ele. Porque o homem é um gênio – um gênio com o bom senso de humor – que é muito engraçado para se ter ao lado. Ele vem preparado para o photoshoot, mas ele também tem um espírito de criança – porque sua espontaneidade é incrível. Ele chegará com ideias para a propaganda, e elas serão ainda melhores que as outras que ele fez antes. Sua imaginação está constantemente mudando e movendo-se. Eu nunca pensei que poderia falar assim sobre as sessões de fotos, mas quando você está trabalhando com ele, existe algo mais profundo do que apenas a imagem. Ela não para no nível do “ok, vamos colocar maquiagem, vamos colocar a roupa e, em seguida tirar fotos bonitas”. É mais profunda que isso. Quanto mais você conhecer Karl Lagerfeld, mais você o ama. Há algo em seus olhos. Ele sempre usa aqueles óculos escuros, então às vezes ele vai os tira e você vê os olhos. Há pureza e beleza. É realmente incrível, porque ele tem um look impressionante, com os ternos e as gravatas e as jóias e tudo mais, mas no fundo há realmente um menino.

P.S: você vê o segredo de Karl Lagerfeld: seus lindos olhos. Então eu tenho uma última pergunta: seus filhos me parecem à síntese perfeita de você e Johnny. Eu queria saber como ter filhos mudou sua perspectiva do mundo. Eu sei que ter filhos pra mim fez uma mudança enorme em mim como artista. Você sentiu isso?
V.P: oh, sim, todo dia. Muda seu comportamento. Sua personalidade não muda, mas você tem mais cuidado com o que você diz e como você diz – então isso já muda as coisas. Minha mente não é completamente minha mais. Eu uso para ser capaz para concentrar e alcançar coisas. Agora acho que é muito mais difícil de focar, porque parece que metade de seu cérebro não pertence mais a você. Meus filhos ainda são pequenos. Talvez isso mudará quando eles ficarem mais velhos, mas eu duvido. Eu não posso dizer uma frase grande sobre o que exatamente mudou em mim quando eu tive filhos. Quero dizer, eu não sinto que eu faço um esforço tremendo para tentar fazer esse lugar melhor pra nós e para nossas crianças agora. Mas eu faço pequenos esforços – e eu tento fazer todos os dias. É porque se meus filhos me perguntam sobre algo, eu me certifico em ter sempre o tempo para mostrar e explicar as coisas para eles para que compreendam.

P.S: Bem, pequenas coisas são as mais importantes às vezes. Nenhum de nós vai ser capaz de resolver os problemas do mundo. Mas se nós pudéssemos resolver um problema para nossos filhos então estávamos fazendo nossa parte.
V.P: Uma coisa por vez.

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