Tradução: Les Inrockuptibles (Abril de 2013)

 

No clima para Love Songs
Benjamin Biolay fez Vanessa Paradis retornar a música com um álbum que ela considera um bolo de chocolate.

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Teu último álbum de estúdio (Divinidylle) foi lançado há 6 anos. Quando você começou a pensar no seguinte? Quem te deu o clique?
VP: no momento onde eu trabalhava no Best Of, há 3, 4 anos, eu queria uma canção original, e vários autores tinham me enviado. Eu escolhi a de Gaetan Roussel. As outras me agradavam, eu as deixei reservadas. Depois, outras canções chegaram há 1 ano, sobretudo de Benjamin Biolay. Ele me enviou-as arranjadas, que ele tinha feito durante a gravação de seu álbum. Eu ouvi os arranjos e foi um baque. A ideia de fazer um disco veio praticamente na mesma hora.

O álbum tem uma grande variedade musical, era tua vontade?
O ecletismo veio das canções que eu recebi. Eu sempre tenho vontade de fazer um álbum limpo, eu sonho em fazer um disco guitarra, baixo e bateria. E não faço porque também amo as cordas e instrumentos de vibração. Eu não consigo parar nos arranjos. E depois, eu estava com um produtor que eu adoro. São as músicas que me dão vontade de fazer um álbum, eu não as separo porque vão bem juntas, eu escolho aquelas que me falam mais, e ainda é o trabalho dos arranjos que as liga, que as deixam coerentes umas com as outras.

O álbum é muito fluído, líquido, dá vontade de ir tomar banho…
Essa ideia me agrada, porque quer dizer sol, férias. É verdade que há muitos textos que tem a ver com mar, o oceano. E depois, há uma canção italiana, uma um pouco britânica, outra africana… É uma viagem, partimos para várias culturas, várias línguas. É isso, a variedade. Teremos êxito se fizermos um álbum que temos vontade de escutar nas férias, um álbum para fazer bem. Eu tinha todos esses textos fortes, e não tinha vontade de fazer um disco triste, não queria fazer um álbum que escutamos só quando tudo vai mal. Existem discos sublimes que eu não posso escutar todos os dias. Eu queria que ele pudesse ser escutado conforme o humor.

Benjamin Biolay então realizou o álbum e vocês cantaram Les Roses roses em duo. Soa muito Gainsbourniano, não?
Eu não o vejo assim. É verdade que em certas palavras, quando ele fala nas suas músicas, as vezes tem entonação Gainsbourniana. Deve ser chato pra ele ser comparado todo tempo a Gainsbourg. Ao mesmo tempo, existe pior comparação! Na França, sentimos muita falta de Gainsbourg que fazia parte da nossa vida todos os dias, seja na música ou num comentário quotidiano. Nos apegamos, temos orgulho dele. Eu entendo essa vontade que temos de evocar uma passagem, um legado. Biolay é forte nas melodias, nos textos, nos arranjos, na direção dos músicos. E além de seus estudos no conservatório, ela é autodidata no piano e violão. Ele não tem então essa espécie de repressão da música clássica. Isto é o que lhe dá grande liberdade como compositor e facilidade no estúdio.

O fato de que Biolay trabalhou com várias cantoras não te incomoda?
Eu não pensei nisso. Trabalhar com alguém inteligente, gentil e respeitoso era indispensável. Se eu sentisse outra coisa, fora o talento, eu teria dito não. Eu tenho a chance no meu trabalho de pode escolher com quem quero trabalhar. É formidável quando o talento e a benevolência estão lá. Benjamin fez esse disco para que fosse parecido comigo e porque ele me agrada. Ainda teve surpresas nos detalhes que fazem a qualidade dos arranjos. Temos gostos musicais similares. Amamos os arranjos do soul, dos instrumentos de sopro, das cordas, do lado Marvin Gaye. Escutamos muito no estúdio, para nos inspirar ou para pensar em outra coisa.

Por que um álbum duplo?
Veio com o problema de riqueza, de ter canções muito lindas. Eu prefiro álbuns de 10 canções, mas eu não tinha como escapar de certas e não queria guardar pra mais tarde. Eu levo as coisas como elas chegam, e pode ser a única vez que eu faço um álbum duplo. E ainda, eu amo a ideia de voltar a uma antiga escola, onde fazíamos verdadeiros discos, como um livro, que podem se prolongar.

Por que um disco de canções de amor?
Os autores e compositores não me enviaram que isso. Caiu bem porque é o que eu prefiro cantar. Mas mesmo com 14 anos eu cantava canções de amor, isso não é novidade. E ainda, não são mais do que canções de mar de rosas entre um homem e mulher. Há também sobre amizade e desilusão. Cantar os textos que me foram dados, era como se prender no cinema ou numa cena de teatro, é como uma fuga do corpo e da alma. Eu tenho essa sensação com as músicas, elas me invadem e me permitem invadir suas histórias. Elas exprimem emoções diferentes, faz bem.

La Chanson des vieux cons é muito tocante, ela parece colar na tua vida, no fato de que você fez 40 anos…
Eu levei tempos para poder cantar ela sem chorar. Eu treinei, mas eu raramente estava terminando intacta. É isso aí, agora foi digerida, mas se eu não tomar cuidado, ela ainda pode me prender pelas cordas do coração. Eu tenho que parar e cantar para todos nós, não só para mim.

Sem evocar tua vida pessoa, esse álbum foi útil nesse momento da tua vida? Fez bem?
Todos meus álbuns me fazem bem, porque cantar me faz bem, coloca oxigênio no meu cérebro, acalma os nervos. Eu aconselho todo mundo a cantar, mesmo os que não sabem. É difícil dizer se esse me fez mais bem do que os outros. É como quando comemos um bolo de chocolate: sempre o último é o melhor, é difícil lembrar se aquele de 5 anos atrás era melhor.

Esse álbum foi fácil de digerir?
Extremamente fácil. Eu adorei o estúdio ICP em Bruxelas, mesmo se eu mal vi Bruxelas. Seguido estávamos em três ou quatro em estúdio, estava longe de meus amigos, da minha família, não havia nenhuma distração. Gravamos 25 músicas em um mês e meio. Benjamin não é só gentil e talentoso, mas também de uma eficácia e rapidez prodigiosa. Era um espaço de total criação e liberdade, sem ser julgado, uma bolha magnífica. No final, não queria que isso terminasse.

Você sempre trabalha num meio muito masculino. Todas as pessoas que escreveram pra esse álbum são homens…
Eu gravei meu primeiro disco com 15 anos com homens, eu estou bem entornada agora, é uma questão que eu não me pergunto. Eu preciso da companhia das mulheres, as musicistas vinham até o estúdio, mas a companhia dos homens me faz bem, eles me fazem rir. Eu recebi músicas escritas por mulheres, mas eu não as guardei, é assim, por acaso. Mesmo assim, no álbum há um texto escrito por Ruth Ellsworth Carter.

Essa música é co-assinada Lily Rose/Johnny Depp/Vanessa Paradis. Como aconteceu?
Essa canção foi composta há muito tempo, 08 anos. Só tinha os acordes, eu procurava uma melodia e não encontrava. Minha filha, que tinha 6 anos na época, começou a cantarolar algo sublime. Essa melodia ficou, junto com a primeira frase do texto, que ela cantou com 6 anos. E o resto foi escrito há 1 ano.

Você escreveu uma só música no álbum, Doorway. Você gostaria de compor tudo?
É um desejo profundo, mas não me sinto capaz. Eu vejo a dificuldade que tive em compor uma, duas ou três. É o que há de mais lindo, ir ver um artista no palco que canta suas composições. Eu admiro Feist e Melody Gardot por isso. Mas eu não tenho capacidade de escrever muitas músicas. Eu toco muito mal piano e violão – suficiente para escrever músicas, não para me acompanhar. Depois, há uma grande liberdade em poder se exprimir através das palavras dos outros, como no cinema, misturar seu papel com sua vida pessoal, não sabemos mais onde estamos, na realidade ou ficção. Nas músicas feitas pelos outros, existe isso também, podemos nos esconder.

Qual é tua primeira lembrança musical?
Pedro e o Lobo, a versão com Gérard Philipe. Eu passei muito tempo na casa da minha vó durante minha infância, e tinha esse vinil… Eu o usei. Eu fiz meus filhos ouvirem, mas não num bom momento. Eles eram muito pequenos, me lembro de uns deles ficar com medo, então eu desisti.

Como veio essa música em italiano, Tu si na cosa grande, que você canta no disco?
John Turturro, por quem tive a sorte de ser dirigida no outono passado, me pediu para cantar essa música para o filme. Eu então a gravei durante o tempo que fiz o álbum. Benjamin fez uma linda versão. É um clássico italiano que muitas pessoas cantaram, mas nós fizemos algo mais doce, longe do lado apaixonado original.

O que você aprendeu com a turnê acústica 3 anos atrás?
Eu senti coisas mais poderosas do que de shows elétricos. Eu demorei pra fazer turnês, esperei meu terceiro álbum. Com 15 anos, não me sentia pronta. Minhas primeiras experiências com Joe Le Taxi na época foram violentas. Além do mais, na primeira vez que dei um concerto, quis fazer um show. E depois no palco, eu não era que uma interprete, e ainda, uma interprete sem voz. Eu tive muito tempo a sensação de que minha voz não agradava, que precisava dançar ou ser feminina para fazer um Zénith. Era violento. Pra turnê acústica, era o inverso. Eu começava sentada num banquinho, tudo estava ao centro, rodado por música. Os textos foram ampliados, principalmente aqueles que eu cantava com 15 anos. Hoje, eu vou fazer shows elétricos, mas espero reencontrar essas sensações. Fora isso, eu adoro os grandes shows. Eu adoraria ver Beyoncé no palco, eu adorei ver Prince.

Teu primeiro disco, Joe Le Taxi, virou um hit, depois um clássico. O que representa essa música pra você 25 anos depois?
O dia onde isso me surpreendeu mais foi quando Afrika Bambaataa me disse que remixou em Nova York. Pra mim, essa canção é um símbolo. Ainda, é uma boa música, o arranjo era bom para a época, não foi programado para ser um hit de uma garotinha de 14 anos. Eu sempre a canto, isso me liga aos seus autores. Eu sempre me sinto em contato com a Vanessa daquela época, eu não posso me desfazer de quem eu era. É o que fez minha vida ser o que é hoje, eu não tenho vontade de negar.

Você acha que seu nome, Paradis, determinou as coisas?
É um nome que faz nome de fama, eu jamais ousaria usar um parecido… Eu penso em meu avô que era um trabalhador e adorava a vida, e se chamar Paradis, não mudou muita coisa pra ele.

Você tem agora 40 anos. Como você vê e imagina tua vida daqui 20 anos?
O fato de ter 40 anos é uma fatalidade. Olhamos pra trás, imaginamos o futuro… Quando a questão vem, remexe o meu espírito, eu tento escapar, não respondo. Eu me pergunto como poderia viver sem cantar – e ao mesmo tempo, me imagino no palco, eu não sei… Os dias são muito curtos, eu tenho muito o que fazer no presente. E me agrada não saber. Eu poderei progredir, eu poderia escrever canções para os outros, ou fazer um filme. Ou viver tudo simplesmente, fazer trabalhos manuais o dia todo, não importa, de terra, pintura, desenho, colagens. Coisas transmitidas por meu pai artesão. É realmente bom chegar a fazer alguma coisa com as mãos. Durante esse período, o espírito repousa

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